Em seu quarto capítulo, intitulado “O Capital vai ao mercado”, Harvey (2010, p. 91) aborda a particularidade da mercadoria – em forma de coisa ou serviço – de ser convertida em dinheiro e lucro para a realização da acumulação perpétua. Em seguida, alude ao conceito de fetichização da mercadoria, de Karl Marx, ao relacionar o desejo à geração de valor à mercadoria, resultando, por fim, no consumo.
Neste capítulo, além disso, Harvey (2010) define boa parte das crises cíclicas do capitalismo, como a Grande Depressão, como um evento diretamente associado ao subconsumo. Nesse sentido, ressalta a relevância do papel interno dos capitalistas no reinvestimento do excedente a fim de promover a circulação de capital em virtude do aumento de consumo pela população e a geração de postos de trabalho, além do papel relevante do crédito para a atenuação dessas crises de subconsumo.
Harvey (2010) pontua que o capitalismo possui inúmeras dinâmicas internas de funcionamento que são responsáveis em grande parte pelas suas próprias crises, citando a monopolização excessiva e sua consequente perda de competitividade e “estagflação” (inflação + desemprego) – conceito retirado do livro “Capitalismo Monopolista”, de 1960 – ou mesmo crédito, que “mitiga a crise, mas pode acumular contradições e tensões” (Harvey, 2010, p. 99). E dessa forma, o fluxo de circulação de capital está constantemente submetido a fatores internos que o retardam ou o interrompem, então as tendências de crise nunca se esgotam, apenas se deslocam.
Dessa maneira, o capitalismo sempre se apresenta como um sistema inerentemente contraditório, embora, como pontuou Harvey (2010), as crises sejam necessárias à evolução desse modo de produção, mesmo que custem normalmente às condições de vida da classe popular e da natureza.
HARVEY, David. The Golden Age and its Demise. In: HARVEY, David. The enigma of capital and the crisis this time. Reading Marx’s Capital with David Harvey, v. 30, 2010.
